As histórias que vivem em nós

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Esses dias encontrei uma vizinha no play do meu prédio, uma senhora bem jovial de 82 anos.

Estava se mudando, ia agora viver com o filho mais novo, dizia ela, para cuidar dos netos (e ser cuidada).

Dona Alaíde, sempre muito falante, estava sentada ao lado de duas caixas que haviam sido carregadas até ali pelo zelador do prédio e desatou a me contar o que guardava depois desses mais de 20 anos vivendo sem o marido.  Apenas ela, seu charutinho e uma coleção invejável de livros.

Eu, que estava com tempo antes de sair para o trabalho, sentei-me ao seu lado para ouvir sobre suas caixas: as últimas coisas suas que ainda estavam no nosso prédio.

“Na casa do Railson já tem mais umas cinco dessas daí, mas essas duas eu deixei por último, porque elas precisavam de mais tempo pra se despedir do apartamento.” dizia em tom misterioso e risonho.

Nosso condomínio existe há mais ou menos 36 anos e dona Alaíde foi uma das primeiras moradoras, junto de meus avós. Quando ela veio morar aqui, o marido, um belo e jovem comandante da aeronáutica, ainda era vivo e tinha com a esposa o pacto de sempre trazer-lhe um livro de cada nova viagem que fazia.

“Nos meus 42 anos de casada, acumulei 288 livros! Não que meu velho tenha viajado tanto, mas ele sempre trazia mais de um. Eu lia todos, mas gostava mesmo dos de poesia. Doei muitos com o decorrer do tempo. Ficaram apenas os mais especiais! acredita que uma vez ele me trouxe um de poesia autografado pelo Fernando Sabino? Tá aqui, nessa caixa! Também tenho um livro só de fotografia das praias do Rio nos anos 30. Só saíram 100 cópias desse livro! O Walmir amava esse!”

Eu estava ali, ouvindo tudo e sorria a todo tempo, mas como Dona Alaíde parecia falar para si, apenas divagando e matando a saudade de seus bons tempos, apenas calei-me e observei quanta vida e história havia nas caixas e no coração daquela mulher.

Passou uns bons minutos contando as histórias de seus livros e quando eu imaginava que não poderia ficar melhor, ouço sobre a grande joia daquela caixa:

“Amo todas as coisinhas guardadas aqui, filha, mas pra mim a melhor é esse livro aqui, que Walmir escreveu pra mim. Você acredita que o homem passou um ano inteiro escrevendo um livro só de poesia sobre mim? Disse ele que escrevia enquanto estava nos aeroportos, nos intervalos do quartel. Quando ganhei, eu era uma mocinha feito você e tava esperando o Aílton, que tava na barriga.”

Mostrou-me orgulhosa as letras bem traçadas do marido, num frágil caderno de quase 60 anos de idade.

Num dos trechos havia a frase “Somos feitos de boas histórias. Sempre haverá uma dentro de você, meu bem.”

Estava lá ela, uma história maravilhosa, com suas finas rugas e sorriso largo, acenando para o filho que acabara de chegar.  Dona Alaíde e sua vida de amor e de bons livros, lembrando que não seremos no futuro feitos de carros do ano, celulares da moda ou de roupas caras, seremos apenas histórias.

fernanda-candido

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